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Relacionar-se - parte 2

  • Foto do escritor: Duana Lipa
    Duana Lipa
  • 12 de abr. de 2020
  • 4 min de leitura

Nunca imaginei que poderia ser tão completa sexualmente como sou hoje, entretanto os conflitos persistem, não conseguimos conviver a três na mesma casa, até tentamos, mas eu me sentia deixada de lado quando percebia que ele a tratava com ternura, quando eles se beijavam para mim era como se ele, a cada dia, esquecesse um pouco de mim e chegaria um momento em que ele a escolheria. Afinal ela era a “moderninha”, “descontruída”, “descolada” e eu apenas “aceitei” aquela situação para não perdê-lo.


Sim, era assim que eu me sentia morando com os dois: a antiquada que se adaptou para não perder. Porém isso não era verdade, ele me tratava da mesma forma, mas o maior problema é que havia outra pessoa ali e, para mim, aquilo se tornava uma disputa. A monogamia nos perpassa de uma forma que não imaginamos, todos os dias era como se uma voz me lembrasse das tradições familiares, como eu iria às reuniões de família agora com uma “vela”.


Eu não tinha coragem de assumir que era bissexual para minha família, meu pai não ia suportar. Como apresentá-los aos meus amigos no trabalho, faculdade, enfim como encarar o mundo vivendo um relacionamento tão fora dos padrões que eu não sei quem inventou, mas nos afetam até hoje. A casa era nosso refúgio feliz, mas o convívio era insuportável para mim, afinal eu me questionava a todo instante se era isso mesmo que eu queria.


O sexo era cada dia melhor, nos entrosávamos mais a cada transa, não me era tão estranho tocar sexualmente outra mulher. A primeira vez que ele ficou só de expectador, nos assistindo eu senti mais prazer ainda, quando ele integrou a relação ficou ainda mais quente. Como é gostoso estar nos braços deles, mas como é difícil encarar de fato o mundo, as pessoas que você ama, com a sua realidade “despadronizada” de viver a vida.


Afinal é a minha vida, ela é única eu não tenho oportunidade de voltar ao capítulo anterior e desfazer ou fazer de outra maneira. Eu só tenho uma chance de viver cada dia, preciso escolher todo dia entre, ser quem sou ou ser quem as pessoas querem que eu seja. Para quem está de fora, a escolha é bem fácil: “Seja você mesma!” alguns dizem, mas assumir quem sou acarreta em tantas perdas, não poder abraçar meus primos pequenos, meus sobrinhos, como se eu tivesse uma doença muito contagiosa.


Somos empurrados a viver num submundo, taxados como promíscuos, impuros, pornográficos, bem como era feito com os leprosos nos tempos primórdios, porém naquela época não haviam descoberto a cura para a lepra e, pelo nível de contágio, aquela medida era necessária.


Hoje em 2020, parte da sociedade está doente e ainda crê piamente que a doença está no outro. A maneira de vestir, como se trabalha, os modelos de família, tudo é uma questão para que o outro se sinta no direito de opinar e quiçá interfira na sua vida.


A questão sexual é latente nas vidas de todas as pessoas, afinal somente os assexuais não o fazem, entretanto, não é uma questão para ninguém um esposo violar o leito sacrossanto do matrimônio quando não enxerga que a esposa precisa se satisfazer sexualmente também e ignorando isso ele a estupra, a possuindo mesmo quando ela diz que não e ainda usa a máxima: “Você não pode me negar, você é minha mulher tem que me servir!”.


Servir! Como pode ser tão aceitável a uma sociedade que uma mulher sirva sexualmente a um homem e tão inaceitável que essa mesma mulher seja dona do seu próprio corpo e consequentemente do próprio prazer.

Procurei ajuda profissional porque vivia num conflito interno imenso, eu amava duas pessoas, dois sexos, dois toques, dois mundos e isso me era conflitante demais, pois não era o mesmo estilo de vida escolhido pelos meus pais, enfim, pela sociedade. A terapia me ajudou a enxergar que precisava escolher entre perpetuar paradigmas e me adequar a imposição social ou os quebrar e viver de fato o que sinto e o que me faz feliz.


Meses e meses a fio, sessão a sessão e eu me via encurralada em mim mesma. Continuo o tratamento, porém não consegui permanecer morando com eles, não mais pela convivência com meus amores, porque entendi na terapia que não havia competição, mas cumplicidade. Nós nos completávamos na cama e fora dela, entretanto a pressão social me fez desistir de conviver com eles.


Nosso relacionamento acabou sendo um evento no local onde morávamos e não suportei os olhares de reprovação, espanto, julgamento, deboche das pessoas. Contudo se fosse só isso eu sofreria, mas conseguiria suportar, só que as pessoas são muito perversas e começaram a perseguir minha família. No ambiente de trabalhos, nas rodas de amigos, no bar, na padaria, eles eram apontados como parentes da promíscua, da libertina. Mesmo assim minha família me abrigou em casa de volta, superamos nossas diferenças.


O conselho mais sábio que recebi, foi da minha tia Amália, que trabalha voluntariamente como conselheira numa instituição religiosa. Ela me disse: Filha, na verdade as pessoas invejam a sua coragem de não se esconder na sombra, mas de uma forma ou outra assumir que existem outras formas de amar, de sentir prazer. Nunca perca essa coragem que, nem você mesma sabia que tinha, para ser uma pessoa artificial, para ser cópia de outro alguém. Existem muitas outras formas de viver a sexualidade bem mais destrutivas para os que a praticam do que a que você escolheu. Você escolheu dar e sentir prazer a sua maneira e isso não fere a ninguém. Muitos casais ditos “padrão” escolhem maneiras perversas e subjugam seus parceiros através do sexo.


Eu olhava para minha tia e observava o amor com que ela me olhava a emoção que ela sentia ao me falar aquelas palavras e não tive dúvidas de que não estava fazendo nada de errado para ser julgada daquela maneira tão cruel. Permaneci morando em casa com meus pais até para preservá-los dos ataques dos cidadãos de bem, mas não desisti da minha relação. Conversamos muito e decidimos que se não poderíamos viver os três, viveríamos separados. Passamos a nos encontrar afastados do local onde morávamos e vivemos nosso amor quase clandestinamente, não por nossa vontade, mas por um padrão social imposto que nos segregava de viver a nossa maneira, só não conseguiram nos impedir de nos amarmos os três cada dia mais.



 
 
 

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