Relacionar-se
- Duana Lipa

- 3 de abr. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 12 de abr. de 2020

Meu relacionamento é muito bom, é muito bom estar com ele em todos os ambientes. Ir a festas, cerimônias, reuniões familiares, passeios, enfim ele é a minha melhor companhia, principalmente quando estamos a sós. Um amante carinhoso, atencioso, vigoroso – não me vejo sem ele, porém é inevitável perceber que mesmo me satisfazendo em tudo ele não está completo, seu olhar busca sempre algo mais e esse algo não está em mim.
Após anos nesse dilema sentia ele cada vez mais distante, seu sorriso escondia uma dúvida que o consumia e eu pensava: Por que ele não fala o que está acontecendo? Até que tomei coragem e numa madrugada depois de um amor gostoso, perguntei o que o afligia tanto. Ele me olhou nos olhos e disse que tinha medo de me perder se falasse e preferia guardar aquilo com ele e viver ao meu lado. Perguntei se era algo tão ruim assim, se ele havia cometido algo tão mal a ponto de nos separar e ele me respondeu que era um desejo proibido que ele anularia por amor à mim. Insisti com medo da resposta, mas insisti.
Ele me confessou que era algo que ele sempre sonhou desde bem menino em se relacionar com duas mulheres ao mesmo tempo, confesso que fiquei cega e o mandei sair de perto de mim na hora. Senti-me violada, traída. Será que eu não era mulher o suficiente para ele? Ele em prantos se vestiu e saiu dizendo que me amava mais que tudo e que era só um desejo. Eu não suportava ouvir aquilo, era um misto de nojo e raiva.
Os dias passavam e eu não atendia mais seus telefonemas, o exclui das minhas redes sociais. Eu tinha muita raiva, entretanto aquela raiva e a minha cabeça em todo instante dizendo que aquilo era errado não conseguiam aplacar no meu corpo a falta que ele me fazia, suas carícias, seus beijos, seu toque, senti-lo entre minhas coxas. Meu corpo todo clamava por ele, mas aquele pedido era demais pra mim! Como eu dividiria o homem que eu amo com outra mulher na minha cama? Ter que transar com uma mulher para ter meu homem comigo, e se eu gostar de transar com ela e me “viciar” como ele ou algo pior... se eu me descobrir bissexual.
Aqueles questionamentos me consumiam, junto com o desejo de me entregar para ele outra vez, meus hormônios controlavam meu corpo, eu não raciocinava direito, foi automático, quando me dei conta eu estava na rua olhando para ver se o via de longe pela janela me escondi atrás de um carro parado do outro lado da rua e fiquei ali observando para ver se o via, nem que fosse pela penumbra da cortina. Enquanto eu me esticava toda para conseguir vê-lo mesmo que de longe, embaixo daquele sereno da madrugada que caía na rua deserta eu sinto aquelas mãos firmes me puxando pela cintura. Sim era ele, surgiu como se viesse da brisa da noite ali no meu pescoço, me pegando com vontade. Minha cabeça me alertava que eu precisava resistir, mas meu corpo negava qualquer resistência, meus poros queriam estar de novo sob o domínio dele.
Sim, eu transei com ele ali mesmo, enquanto me beijava, ele balbuciava que abriria mão de qualquer desejo para não me perder de novo, ninguém desenhava meu corpo com a língua de forma tão perfeita quanto ele, seus dedos me dedilhavam como quem toca uma harpa com sons angelicais. Eu não pensava em nada a não ser que eu queria ser totalmente dele ali mesmo, no meio da rua. Por algum momento até esqueci onde estava e ele precisou abafar meu gemido enquanto me penetrava, quando dei por mim estava nua em cima do caput de um carro, no meio da rua, mas era tão gostoso que eu não conseguia sair dali. Sim eu queria ser possuída por ele ali, bem no meio da rua. Foi uma luta travada entre a libido e a razão e o desejo saiu vencedor, depois daquela noite não haveria para mim algo tão difícil, tão assustador que eu não pudesse ao menos tentar.
Conversamos muito até que chegou o dia de realizá-lo, eu ainda me sentia desconfortável, era algo muito fora da minha realidade. Contudo naquele momento eu já não queria somente satisfazer um desejo dele, me sentia também curiosa em experimentar aquela aventura. Eu precisei descontruir muito dos meus conceitos, deixar de lado aquela voz conservadora do passado gritando dentro de mim que o certo é fazer a dois e entre quatro paredes e, nesse conflito, me vinham lembranças daquele dia em que transamos na rua o quão maravilhoso foi me entregar sem ressalvas e pudores.
Até entrarmos no quarto eu estava nesse confronto, porém quando me entreguei foi tão mágico. Não me senti violada como imaginei que me sentiria, eu queria estar ali mais do que eu imaginava, ser bissexual não é tão mal assim, as mulheres conhecem prazeres escondidos em nós que não conhecemos, foi muito bom sentir a sutileza de um toque feminino, com o vigor da pegada masculina, um misto de prazeres que eu nem imaginava que existia. A melhor coisa que fiz foi quebrar meus paradigmas e deixar rolar somente. Hoje somos um trisal feliz, sendo julgados por toda uma sociedade enrustida e completos na cama a três.



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