Gozar chorando
- Duana Lipa

- 3 de abr. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 5 de abr. de 2020

Lembrei-me de uma passagem na minha adolescência quando fui falar com meu pai enquanto ele bebia com os amigos no bar, papai me expulsava sempre rapidamente dali e dizia: “As conversas daqui são pesadas e você não pode ouvir!” e se tem algo que aguça a curiosidade de qualquer mortal é o tal proibido. Entre tantas gargalhadas e berros que por ali rolavam todos silenciavam para ouvir as histórias daquele cara e eu fingindo que saia dali, dei a volta e ouvi dele uma frase: [...] a mulher quando goza de verdade ela goza chorando [...] – eu só tinha 12 anos e é claro que já tinha me tocado e a sensação do gozo pra mim àquela altura era de culpa e medo porque me era algo proibido, se eu fosse pega a surra era certa, então a sensação era prazerosa e ruim ao mesmo tempo e aquelas palavras me deram a certeza que pelo resto da minha vida seria daquele jeito, um misto de sensações boas e ruins no mesmo momento. A frustração foi grande, passei muito tempo questionando o porquê uma sensação tão boa poderia ser tão ruim ao mesmo tempo. O choro estava relacionado a sofrimento para mim. Passados os anos e a certeza de que o status quo feminino era esse, gozo é bom, mas vem com a culpa de praticar algo “proibido”, mesmo já sendo mulher e mãe, não conseguia me libertar daquele sentimento estava em mim desde sempre e perpetuou-se com as palavras daquele homem.
Os anos passaram e meu pai sempre foi meu melhor amigo, depois que fui mãe (sim para o meu pai só deixei de ser virgem depois que pari) ele me permitiu sentar e beber com ele no bar, quase do lado de fora, mas eu estava lá com ele. Certa vez vi aquele homem de novo e as palavras dele martelaram na minha cabeça na hora, eu tive uma raiva tão grande e num ímpeto disse: Pai eu não suporto esse homem! E meu pai me questionou alegando que eu nem conhecia ele, pois ia pouco ali e que a família dele era bem considerada no bairro e que eu podia ter tido uma má impressão dele, meu pai o convidou para sentar conosco para que eu tirasse aquela má impressão.
Meu corpo estremeceu na hora, depois de algum tempo de conversa, realmente concluí que meu pai tinha razão ele era legal, mas a frase martelava bem alto na minha cabeça e, sob o efeito do álcool que é o maior destrava língua do mundo, enquanto meu pai saiu para o banheiro, pedi desculpas pela ousadia perguntei a ele o que significava aquela frase. Se ele pudesse cavava um buraco no chão e se enterrava de vergonha e muito reticente ainda com uma questão tão íntima relutou em responder dizendo que aquilo era conversa de bêbado e que ele já deveria estar muito doido para dizer aquilo. Insisti e ele muito sem graça respondeu: quando você chora, você não balbucia sons? Foi isso que eu quis dizer, os gemidos, os sons, o arrepio, a taquicardia que é própria desse momento. Não tem como fingir isso com perfeição. Meus olhos brilharam na hora, enquanto meu pai voltou pra mesa sem ouvir nada, me olhou e disse: Satisfeita? Não disse que ele era gente fina! Eu: claro pai. Era só uma coisa mal entendida que eu queria saber.
Deixei claro com o olhar meu desejo e ele que tinha percebido minha volúpia, sem pestanejar correspondeu e apertando a mão do meu velho bem sem graça saiu. Na hora eu pensei: É ele! Tem que ser com ele!
Ele era grisalho, jogador de pelada de fim de semana, cheiroso, naquele tempo diziam que era moreno jambo. Nunca fui tão fã de futebol quanto naquele tempo, meus tios, alguns vizinhos também jogavam no mesmo campeonato do bairro e não foi difícil ficar por ali “torcendo”. Meus olhos desenhavam cada curva do corpo daquele homem, cada detalhe.
Hoje conhecemos as câmeras com superzoom, mas nenhum zoom supera os olhos de uma mulher com tesão, era uma dificuldade disfarçar porque de repente eu virei torcedora. Meses de jogo de sedução, beijos muito quentes roubados, olhares que despiam até meu esqueleto. Um dia, fui com as amigas do colégio para uma balada perto de casa, e chegando lá em meio a um gole e outro eu o vejo se aproximando, ele estava ali me olhando dançar e beber e não o tinha visto, quando ele chegou perto de mim eu já estava em febre, ele cumprimentou a todos e na minha vez ele disse ao ouvido: Eu não suporto mais, tem que ser hoje, vamos sair daqui agora!
Aquelas palavras me abalaram as estruturas eu não consegui me controlar, chamei uma amiga pro banheiro e ela, já percebendo tudo, ao chegar no banheiro me disse: vamos arrumar essa tua cara de puta, toda borrada e suada! Vai lá amiga e seja feliz! Ela nem me deu opção de ponderar nada. Ajudou-me a ajeitar a pouca maquiagem, foi comigo até a porta da balada e ele já estava lá na certeza de que eu atenderia sua convocação. Numa fração de segundos eu o desenhei todo, aquela pele queimada do sol, aquele olhos amendoados cor de mel que pareciam desenhados, aquela camisa desbotoada no peitoral adornado com um pequeno pingente de São Jorge, fazia meu corpo incendiar. Entramos no seu carro e quase não deu tempo de chegar ao motel que ficava a dez minutos da balada, ele só dizia: Desde aquele dia você roubou minha paz, por que você fez isso comigo? Por que eu? Enquanto ele dirigia eu percorria todo seu corpo com minha língua, que homem cheiroso, definido, quente.
Ao chegarmos naquele quarto, quando ele me joga na cama eu sinto aquele misto de prazer e culpa. Ele percebeu parou tudo e me perguntou: Você tem medo de que? Eu envergonhada tentava disfarçar, e ele insistindo dizia eu sou paciente, fala pra mim, nós vamos chegar lá juntos do jeito que você for melhor pra você. Meus olhos responderam sim eu quero e ele entendendo tudo me beijou, me tocou, me esperou, me perguntou se era bom ou não. Ele me ouviu, sim me ouviu. Um homem de quase 50 anos com uma menina de pouco mais de 20 poderia se sentir o professor, mas não, ele entendia que cada mulher é uma mulher e sente de maneira diferente. Ele me ensinou com a sua delicadeza bruta o que era gozar chorando, era ser atendida nos seus desejos, sem julgamento de maneira paciente e o mais importante: juntos. Entendi que não tinha porque me sentir culpada, não era proibido. O gozo feminino é sublime justamente por ser tão oprimido, reprimido e ofuscado pelos padrões patriarcais impostos.
Muitas mulheres passaram por essa vida e não puderam sentir esse prazer, lhes foi negado. E quando alguma delas ousava buscar por algum prazer, eram rotuladas como fúteis e promíscuas, e uma vez imposto a elas esse rótulo eram excluídas do convívio social, passando então a dar prazer aos homens de família. Afinal, todo mundo busca esse prazer e a imposição social nos faz compreender que é errado de alguma forma e vivemos uma vida inteira sem desfrutar desse prazer que é nosso, está em nós, é para nós.
O que fica para nós é que não é quebrar padrão algum buscar satisfação sexual, essa satisfação é o padrão, o sexo é inerente ao ser humano, se assim não o fosse não nasceríamos com genitais. Toda mulher precisa, de preferência pela vida inteira, gozar chorando.



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