A mulher tem sexo
- Duana Lipa

- 12 de abr. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 8 de jun. de 2022

Foram quase 400 dias sem sexo. As restrições e tentações numa cadeia feminina são muitas. Na solidão da cela só não há limites para a masturbação, porém existe horário para isso, ninguém se deita na comarca às 11h da manhã e se toca deliberadamente, só pode “a vera” nas madrugadas ou durante a visita, para aquelas que não têm. Ah! No chuveiro também é liberado.
Algumas se dedicam a religião, trabalhos manuais, leitura ou escrita, para não ver o tempo passar, as mais sortudas conseguem uma vaga de faxina e saem da cela durante o dia para trabalhar, foi nessa que me dei bem, por ter ensino médio completo e conseguir a simpatia da responsável pelo posto de enfermagem da unidade prisional em que eu cumpria pena e consegui ocupar a vaga de faxina do posto de enfermagem na cadeia.
Essa narrativa poderia seguir por diversos caminhos, cabe a mim o que descrever nessa “messiva”. Escolho um tema que é universal, todos praticam de alguma forma, poucos assumem e quase ninguém terá a plena liberdade de exercer quanto a mulher encarcerada, o sexo.
Enquanto apenada, percebi o quanto a sexualidade feminina é suplantada de todas as formas, pela família (poucos companheiros visitam as mulheres), pelo sistema que rege a cadeia que prefere ocultar que a mulher tem necessidade de sexo e o faz quando dificulta ao máximo o processo de visitação íntima para a detenta e, entre outras tantas dificuldades, o medo da cobrança pelo crime que a colocou ali, são expressões como: “Se vira roçuda aqui dentro não fica maneiro lá fora!” “Bandida de verdade não trepa com polícia!” ecoam nos corredores da penitenciária. O que nos resta então? Trepar consigo mesma, chegar diante daquele espelho bem pequeno de acrílico que a segurança deixa passar na revista e dizer pro seu próprio reflexo: Fode comigo!
Muitas que não eram ligadas ao crime aqui fora, na verdade a maioria não tinha ligação com nenhuma facção criminosa, cometem crimes para defender sua própria vida e de seus filhos, e, ali em meio abandono, recorrem ao que pode amenizar um pouco a dor, o gozo. O orgasmo alivia as tensões do cárcere. Quem não tinha ninguém que cobrasse explicação alguma na rua, entregavam-se ao comportamento lésbico, outras no afã de conseguir algum privilégio, se deixavam usar pelos agentes em troca de algum benefício.
O confinamento te obriga a entender, ou pelo menos tentar entender, as atitudes das outras pessoas, mesmo que você não concorde com nada que ela faça. Cada uma sabe das suas necessidades, limitações e se arrumam como podem. Daí vem a liberdade sexual que a mulher presa tem no cárcere, em algumas unidades, elas ficam sozinhas ou com mais uma ou duas por cela. Você não conhece ninguém e ninguém te conhece de fato.
Salvo as restrições de horários e dias já relatados, se tem a liberdade da masturbação, liberdade essa que muitas nem conseguem aproveitar, afinal tanta repressão ao prazer me mostrou que muitas mulheres não sabiam nem o que é vagina e uretra, aquilo me era absurdo, mas é a realidade. Numa cela 3x2m sozinha entendi que ninguém pode me dar mais prazer que eu mesma. Antes de ser penetrada por qualquer pinto, eu preciso ser vista como alguém participante da relação e não somente um buraco quentinho e gostoso para o homem depositar seu sêmen.
Eu não precisava me esconder para me tocar, meus seios, meu clitóris, meu ânus. Entendi que meu corpo é para o meu prazer, percebi que não me agradaria a ideia de ter um cara que, em qualquer momento poderia maltratar um familiar meu e, num outro momento, estaria me penetrando. Essa possibilidade me embrulhava o estômago, logo estava fora de cogitação transar com um agente. O que sobraria? A companheira de cela! O lesbianismo no cárcere é uma chance de gozar pelo toque no corpo de outra pessoa, mas eu não me sinto sexualmente atraída por mulheres. Eu sonhava com pinto, eu via os pintos dos agentes mesmo quando eles estavam de longe em seus uniformes.
O que me restava então era dar prazer a mim mesma, compreender a minha sexualidade, o meu sexo, o meu orgasmo. Sim, eu conheci o verdadeiro prazer sozinha, entendi que só é absurdo entender que a mulher goza e é dona do seu próprio gozo, para aqueles que jamais entenderam quem é a mulher na relação. Para quem não faz questão de aprender e fútil e desnecessário tentar ensinar.



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